Quatro da manhã, o mundo dorme,
mas eu, em pé, feito naufrágio.
A água cai como se lavasse
o que nem o tempo tem coragem.
Meu corpo quente, alma fria,
coração batendo devagar.
A vida grita pelas frestas
de um silêncio que veio pra ficar.
Assumi tudo o que sobrou,
a empresa, os nomes, a missão.
Mas quem segura o que me falta
quando me perco na obrigação?
O pai se foi — deixou legado,
mas não deixou manual de ser.
A mãe e a tia me olham em prece,
esperam que eu saiba o que fazer.
A casa limpa, o almoço pronto,
a roupa passada sem dizer nada.
Mas tem um tipo de solidão
que não se lava com água parada.
O escritório me espera cedo,
mas cedo já sou ausência lá.
Meu corpo vai, meu peito volta,
e a alma finge que vai aguentar.
Os clientes querem milagre,
mas não pagam nem atenção.
Eu viro número no e-mail deles,
eles viram pedra na minha mão.
Não tem descanso entre os prazos,
não tem aplauso entre os deveres.
Só a cobrança que sussurra
enquanto o sono vira paredes.
E eu, que queria viver amor,
me vejo sozinho entre os cantos.
A casa cheia, o peito vago,
um “nós” que perdeu encanto.
Ela dorme cedo, sem me ouvir,
sem ver que lutei o dia inteiro.
E eu vou pro banho me esconder,
feito criança em desespero.
A água quente escorre lenta,
como se soubesse onde doer.
Toco o azulejo como quem reza,
mas nem Deus parece responder.
O box é meu confessionário,
o espelho não ousa me encarar.
E toda madrugada se repete
com meu peito prestes a estourar.
Eu grito em silêncio, todos os dias,
pra não assustar quem me quer bem.
Mas quem ama também cansa
quando só entrega e nunca tem.
Tenho medo de morrer subitamente,
não por tragédia, mas por excesso.
Como quem cai dormindo em pé
de tanto fingir que tem sucesso.
As costas doem mais que o normal,
mas não sei se é físico ou alma.
Só sei que carrego mais do que posso,
e a conta chega quando tudo acalma.
Queria uma voz que dissesse:
“Vem, descansa, eu seguro agora.”
Mas tudo o que ouço é o eco
de quem já partiu, de quem foi embora.
A filha vem. É minha luz futura.
A única certeza que me empurra.
Quero ser chão firme pra ela pisar,
mesmo sendo feito de ruptura.
Penso nela no meio da noite,
quando tudo pesa, quando tudo cala.
Ela ainda não sabe, mas me salva
toda vez que o mundo me estala.
Não quero que ela herde a dor,
nem o cansaço que me molda.
Quero que ela herde minha vontade
de continuar mesmo quando tudo falta.
E eu continuo. Todos os dias.
Mesmo com medo, mesmo sem fé.
Porque alguém precisa sustentar
o teto que ainda se mantém de pé.
Sou filho, sou patrão, sou pai,
sou homem tentando não sumir.
Sou silêncio que ninguém ouve,
mas que insiste em resistir.
Já pensei em ir embora por um tempo,
ver se alguém notaria o vazio.
Mas sei que se eu parar de vez,
quem eu amo também cai no frio.
Então fico. Me reconstruo à força.
Com fita, respiração funda e obrigação.
Sorrio às pessoas, mas por dentro
sou tempestade em furacão.
E amanhã eu vou de novo,
mesmo com o peito querendo parar.
Porque alguém lá na frente me espera,
e eu ainda quero ensinar a caminhar.
Quatro e vinte. A água esfria.
Hora de fingir mais um começo.
Visto a roupa, engulo a alma,
e saio — como se ainda tivesse endereço
Igor Gonçalves