Você colocou um copo sobre a mesa
e me perguntou se eu beberia daquela água.
Primeiro limpa.
Gelada.
Transparente.
Depois colocou o café.
A água escureceu.
Você tirou o pó,
colocou água outra vez,
mas ainda havia restos.
E me perguntou:
“Você beberia agora?”
Disse que o copo era você.
Que cada coisa que aconteceu
foi deixando alguma coisa ali.
Que um dia você foi água limpa
e que hoje carrega resíduos
daquilo que eu fiz,
daquilo que eu não fiz,
daquilo que você precisava
e eu não soube perceber.
Eu entendi.
Mas faltou um copo naquela mesa.
O meu.
Porque enquanto você chorava,
eu também tinha medo.
Enquanto você se sentia sozinha,
eu tentava entender como ser pai.
Enquanto você olhava para uma janela
e pensava em não estar mais aqui,
eu recebia aquelas palavras
sem saber onde colocá las dentro de mim.
E coloquei.
No meu copo.
O parto de emergência.
O hospital.
O medo pela Emily.
O medo por você.
A responsabilidade chegando inteira,
sem pedir licença.
Tudo foi entrando.
Depois veio a casa.
O quarto que preparei.
Os móveis que escolhi.
O dinheiro que gastei.
Os planos que fiz.
Não porque madeira, parede e dinheiro
fossem substitutos para um abraço.
Mas porque aquela era também
uma das minhas maneiras de amar.
Eu estava dizendo
“quero vocês aqui”
sem perceber que talvez você precisasse
ouvir outra coisa.
Então tudo desmoronou.
E isso também entrou no meu copo.
Vieram as discussões.
As contas.
As cobranças.
As palavras mal interpretadas.
Vieram os dias em que eu dizia uma coisa
e você ouvia outra.
Eu dizia que estava preocupado
e você ouvia que a culpa era sua.
Eu dizia que precisava trabalhar
e você ouvia que eu não queria estar com você.
Eu dizia para abrir uma janela
e você ouvia uma acusação.
Então comecei a escolher palavras.
Depois comecei a escolher silêncios.
Até descobrir
que meus silêncios também tinham significado
antes mesmo que eu pudesse explicá los.
E cada uma dessas coisas
também caiu dentro do meu copo.
Vieram as contas que eu não sabia como pagar.
O medo de perder aquilo
que meu pai construiu.
O medo de não conseguir sustentar a casa.
O medo de falhar como empresário.
Como pai.
Como homem.
Como companheiro.
E eu fui colocando tudo ali.
Quieto.
Talvez esse tenha sido o meu erro.
Porque você olhava para o meu silêncio
e enxergava ausência.
Mas muitas vezes eu estava apenas
tentando impedir que o meu copo transbordasse.
Hoje você colocou o seu sobre a mesa.
E eu olhei.
Eu ouvi.
Eu me ajoelhei diante da sua dor
e pedi perdão pelos resíduos
que eu possa ter deixado ali.
Não porque tenha colocado todos eles.
Não porque tudo tenha sido minha culpa.
Mas porque saber que eu machuquei você,
mesmo sem querer,
também me machuca.
Só que quando levantei os olhos,
percebi uma coisa.
Meu copo continuava fora da mesa.
Porque nessa história
parece haver espaço para a sua água suja,
mas não para a minha.
Se eu digo que estou cansado,
você me mostra o seu copo.
Se digo que estou com medo,
você me mostra o seu copo.
Se digo que estou no limite,
você me lembra de quando
não percebi que o seu estava transbordando.
E talvez você tenha razão.
Talvez naquele junho
eu devesse ter olhado melhor.
Talvez devesse ter sentado ao seu lado.
Talvez devesse ter perguntado.
Talvez devesse ter abraçado você
quando vi suas lágrimas.
Eu queria poder voltar.
Não para apagar o que você sentiu.
Mas para dizer àquele homem assustado
que havia uma mulher assustada ao lado dele
e que os dois precisavam um do outro.
Só que eu não posso voltar.
E não sei quantas vezes ainda
precisarei pedir perdão
pelo homem que não consegui ser
naqueles dias.
Porque junho passou.
2025 passou.
Mas às vezes parece
que eu continuo morando naquele quarto.
E toda vez que tento dizer
que alguma coisa dói em mim,
sou levado novamente para lá.
Talvez por isso esteja tão difícil
ser carinhoso agora.
Não porque eu olhe para você
e veja um copo sujo.
Nunca foi isso.
É porque minhas mãos estão ocupadas
tentando segurar o meu.
E ele está cheio.
Cheio de medo.
De responsabilidade.
De ressentimento.
De contas.
De culpa.
De cansaço.
De coisas que calei
para não machucar você.
E até de amor.
Sim.
Porque seria muito mais fácil
se não houvesse amor nenhum ali.
Eu simplesmente deixaria o copo na mesa
e iria embora.
Mas não foi isso que fiz.
Continuei segurando.
O seu.
O meu.
A casa.
As contas.
Nossa filha.
O trabalho.
Tudo.
E talvez seja justamente por isso
que minhas mãos já não conseguem
fazer carinho como antes.
Não porque você tenha se tornado
impossível de amar.
Mas porque eu também fui mudando
enquanto tentava carregar tudo.
Então, se um dia colocarmos novamente
dois copos sobre aquela mesa,
eu não quero perguntar
qual deles está mais sujo.
Não quero saber
quem colocou mais café na água de quem.
Quero apenas que você consiga olhar para o meu
com a mesma atenção
que me pediu para olhar para o seu.
Porque talvez nunca tenha existido
um copo limpo
e outro que alguém estragou.
Talvez tenham existido apenas
duas pessoas assustadas,
tentando amar uma à outra
enquanto a vida derramava coisas demais
dentro das duas.
E se ainda houver alguma coisa para salvar,
não será descobrindo
quem sujou quem.
Será quando finalmente entendermos
que havia dois copos
sobre a mesa.
Mesmo quando só conseguíamos enxergar um.
Igor Gonçalves
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Viver é muito mais do que encontrar conceitos, belas frases. E nesse pequeno discurso cheio de erros de concordância e rimas toscas, tento dizer que o essencial não é visível aos seus olhos