domingo, 2 de fevereiro de 2025

O barulho continua


Minha mente quando fecho os olhos insinua

A chegada de um terremoto e tudo treme.

Não adormeço e o barulho continua,

A noite me engole, mas nunca me vence.


O travesseiro é um palco de sombras

Onde o sono se finge de abrigo.

Mas logo me empurra pra fendas profundas,

Me afoga em pesadelos que gritam comigo.


O tempo se dobra em um laço apertado,

Os minutos rastejam sem rumo.

Me viro na cama, prendo o fôlego,

Mas o silêncio me cospe de volta ao escuro.


Adormeço, por fim, sem força, sem luta,

Mas o sono é um algoz traiçoeiro.

Me acorda rasgado, sem ar e sem fuga,

Com o peito batendo um medo inteiro.


A cada cochilo, o inferno retorna,

Em cenários que nunca escolhi.

Acordo ofegante, perdido no quarto,

Sem saber se dormi ou morri.


Meus olhos ardem, queimando em cinzas,

Meu corpo suplica por trégua.

Mas tudo que ganho são horas vazias

E um ciclo que nunca encerra.


O relógio debocha em seus ponteiros lentos,

Desenhando meu cansaço no tempo.

Cada piscada é um salto no abismo,

Cada sonho, um novo tormento.


Me encolho nas cobertas como se fossem muralhas,

Mas nada detém a tormenta.

O escuro transborda, me puxa pra dentro,

E o medo rasteja, frio como serra.


E quando o sol enfim toca minha pele,

Sinto a luz como ferro em brasa.

O mundo desperta, mas eu, despedaço,

Carregando a noite no rosto e na alma.


Já nem sei se é pior não dormir ou sonhar,

Se o dia é refúgio ou sentença.

Mas sei que ao anoitecer, sem escolha,

Voltarei a ser presa do próprio tormento.


Igor Gonçalves 

terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Corações e Trovões

Os corações, frágeis como cristal,

Dançam no abismo do bem e do mal.

Quebram-se em mil ao menor deslize,

Ecoando dores que ninguém precise.


Na minha mente, trovões a rugir,

Estrondos que insistem em nunca partir.

São tempestades que moldam meu ser,

Cicatrizes que o tempo não quer esquecer.


Os pedaços de um coração partido

Espalham verdades que nunca admito.

Cada estilhaço, um reflexo do chão,

De sonhos desfeitos, perdidos na mão.


E os trovões continuam a gritar,

Como vozes que vêm para me confrontar.

Ressoam memórias de um tempo fugaz,

De dias que o vento levou para trás.


Mas mesmo em meio ao som e ao quebrar,

Há uma força que insiste em lutar.

Corações se colam, trovões se aquietam,

E a calma emerge onde as dores se insetam.


Que os trovões sejam guias no meu renascer,

Que os pedaços se unam para me refazer.

Pois entre os estrondos e o cristal no chão,

Encontro a força que há na solidão.


Igor Gonçalves 

quarta-feira, 3 de julho de 2024

Ponta do abismo


Na iminência entre o abismo e o bem-estar,  

Qualquer desconforto consegue me derrubar.  

Os pedaços da alma insistem em se fragmentar,  

Talhando, assim, a chance de recomeçar.


"O amanhã será diferente", me pego a pensar;  

Mas, ao amanhecer, torno a falhar.  

Estou sempre tentando me reconstruir;  

Meu castelo de areia vive a ruir.


Minhas lágrimas partem direto ao coração,  

Pois dos olhos não saem mais.  

Sinto, ao mesmo tempo, a pior emoção:  

De me encontrar? Jamais!


Com sorrisos, tento disfarçar,  

Alguma parte da minha alma há de se renovar.  

Busco alternativas para me entreter,  

Pois pensar cansa e chega a doer.


O anjo não consegue mais se comunicar;  

Tem sido assim há tantos anos.  

A luz que antes podia me iluminar,  

Apagou-se, destruindo meus planos.


Esses desejos que um dia estiveram aqui  

Foram, tempo a tempo, enterrados.  

Minha mente sempre rebobina o seu partir,  

Pois essa ação deixou meus ombros pesados.


Por isso, qualquer desconforto consegue abalar.  

A água quente não consegue mais limpar,  

Tampouco relaxar.  

Coração que bate pesado,  

Cansa,  

Para de andar,  

E não sai mais do lugar.


Igor Gonçalves


sexta-feira, 4 de novembro de 2022

Inverno Devorador




 

Quando o céu em chamas revelar

Um trem inebriado carregando nossas sombras 

O pulsar do Sol congelante diverge em ondas

Destoando a imagem que quero mostrar.


Meus impérios clamaram pela volta do Rei 

Que em outra constelação agora está 

Quem é que vai memorizar o que fraseei

Na sinfonia de tudo que há.


Sou Zéfiro por dentro

Mas às vezes me torno Bóreas 

A inconclusão de saber se sou centro 

Me devora a alma clamando por histórias. 


Há de se pensar que um dia pude refazer 

O mais normal é perecer 

Porém, não vou esmorecer o que me ilumina 

Pois no final sou estrela vespertina. 


domingo, 14 de novembro de 2021

Soneto da Admissão

 Em tudo o meu amor se faz presente 

Com cuidado penso em continuar 

Amar é tudo aquilo que deve importar

Do meu coração que muito sente.


Posso viver o romance intensamente 

Espalhando as notas de um canto sem fim

Arranha-me suas unhas cor carmim 

Suas marcas incendeiam eternamente.


E o fogo do qual sinto queimar 

Não machuca, mas espalha 

Sou gentilmente prisioneiro do seu coração.


Mas posso fugir da minha falha 

Pois ela não deixa tudo ser em vão 

Me faz ser humano pronto para melhorar.


Igor Gonçalves 

quarta-feira, 14 de julho de 2021

Sobre ir, voltar e desistir

 Meu lado sombrio pode te iluminar?

Meu coração frio consegue te aquecer?

As sombras que carrego vão te acompanhar 

Ou vão te escurecer?


O tempo que perdemos me deixou culpado

Você o sol em vida acabou nublando 

Sinto que te prejudico ficando ao seu lado

Mas não te esqueço nem mesmo sonhando. 


Será que a força do amor é a mais forte?

Não vejo saídas ao meu desespero sombrio 

Cada dia que passa sinto aproximar a morte 

E minha angústia deixa tudo mais frio. 


Não querer arriscar por medo de você se perder 

No meu espaço sem fim onde tudo se queimou 

É ser maldoso deixar você entrar e viver 

Em um ambiente que nada restou. 


O quarto decorado se deteriorou 

As memórias parecem histórias de mentira  

Hoje acorrentado e preso estou 

Vivendo raivoso, sofrido e cheio de ira.


Questiono-me porque tem que ser assim 

A consciência de que posso existe 

Mas a língua que me expresso é pior que latim 

E por fim, deixo-a triste. 


Preciso me libertar e tirar esse peso das costas

O mundo que carrego me aprofunda 

Me deixa corcunda e não passo de apostas 

Mal sucedidas em te dar uma vida conjunta.


O meu relógio despertou 

E não precisei acordar 

Mais uma noite em claro estou 

Nem lágrimas tenho para chorar. 


Igor Gonçalves

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Movido a vapor



Tormento bucólico 
Lamento clichê do amor 
Achar que é dulcícola
Cai ferido em mais um dissabor.

A peça mais nova do ator 
Resume a teimosia de sua paixão 
Já são 11h15 e ainda é escuridão.

Fazer mais é viver menos 
Acelerar mais e não olhar o retrovisor 
Deixar parado e fugir 
É ar o frio seco dessa cor. 

A vida prega um prego que não vai mais sair
Escuto de longe, não posso dormir 
O doce e sereno frio da rua 
É tão distante como morar na Lua.

Estou sem pressa e não posso mais sair daqui 
Em todos os esgotos tive que ir 
Mas os desgostos que engoli 
Digeriram aquilo que senti.

Tampouco me apresso 
A sombra me enegrece 
Quero romper o processo 
Essa é minha prece.

Igor Gonçalves (02/2020)