sábado, 29 de março de 2025

Chuveiro às 4 da manhã

 



Quatro da manhã, o mundo dorme,

mas eu, em pé, feito naufrágio.

A água cai como se lavasse

o que nem o tempo tem coragem.


Meu corpo quente, alma fria,

coração batendo devagar.

A vida grita pelas frestas

de um silêncio que veio pra ficar.


Assumi tudo o que sobrou,

a empresa, os nomes, a missão.

Mas quem segura o que me falta

quando me perco na obrigação?


O pai se foi — deixou legado,

mas não deixou manual de ser.

A mãe e a tia me olham em prece,

esperam que eu saiba o que fazer.


A casa limpa, o almoço pronto,

a roupa passada sem dizer nada.

Mas tem um tipo de solidão

que não se lava com água parada.


O escritório me espera cedo,

mas cedo já sou ausência lá.

Meu corpo vai, meu peito volta,

e a alma finge que vai aguentar.


Os clientes querem milagre,

mas não pagam nem atenção.

Eu viro número no e-mail deles,

eles viram pedra na minha mão.


Não tem descanso entre os prazos,

não tem aplauso entre os deveres.

Só a cobrança que sussurra

enquanto o sono vira paredes.


E eu, que queria viver amor,

me vejo sozinho entre os cantos.

A casa cheia, o peito vago,

um “nós” que perdeu encanto.


Ela dorme cedo, sem me ouvir,

sem ver que lutei o dia inteiro.

E eu vou pro banho me esconder,

feito criança em desespero.


A água quente escorre lenta,

como se soubesse onde doer.

Toco o azulejo como quem reza,

mas nem Deus parece responder.


O box é meu confessionário,

o espelho não ousa me encarar.

E toda madrugada se repete

com meu peito prestes a estourar.


Eu grito em silêncio, todos os dias,

pra não assustar quem me quer bem.

Mas quem ama também cansa

quando só entrega e nunca tem.


Tenho medo de morrer subitamente,

não por tragédia, mas por excesso.

Como quem cai dormindo em pé

de tanto fingir que tem sucesso.


As costas doem mais que o normal,

mas não sei se é físico ou alma.

Só sei que carrego mais do que posso,

e a conta chega quando tudo acalma.


Queria uma voz que dissesse:

“Vem, descansa, eu seguro agora.”

Mas tudo o que ouço é o eco

de quem já partiu, de quem foi embora.


A filha vem. É minha luz futura.

A única certeza que me empurra.

Quero ser chão firme pra ela pisar,

mesmo sendo feito de ruptura.


Penso nela no meio da noite,

quando tudo pesa, quando tudo cala.

Ela ainda não sabe, mas me salva

toda vez que o mundo me estala.


Não quero que ela herde a dor,

nem o cansaço que me molda.

Quero que ela herde minha vontade

de continuar mesmo quando tudo falta.


E eu continuo. Todos os dias.

Mesmo com medo, mesmo sem fé.

Porque alguém precisa sustentar

o teto que ainda se mantém de pé.


Sou filho, sou patrão, sou pai,

sou homem tentando não sumir.

Sou silêncio que ninguém ouve,

mas que insiste em resistir.


Já pensei em ir embora por um tempo,

ver se alguém notaria o vazio.

Mas sei que se eu parar de vez,

quem eu amo também cai no frio.


Então fico. Me reconstruo à força.

Com fita, respiração funda e obrigação.

Sorrio às pessoas, mas por dentro

sou tempestade em furacão.


E amanhã eu vou de novo,

mesmo com o peito querendo parar.

Porque alguém lá na frente me espera,

e eu ainda quero ensinar a caminhar.


Quatro e vinte. A água esfria.

Hora de fingir mais um começo.

Visto a roupa, engulo a alma,

e saio — como se ainda tivesse endereço


Igor Gonçalves 

domingo, 23 de março de 2025

Enquanto todos dormem

Peço ao celular que toque uma conversa,

estou sem sono e não tenho pra onde ir.

A noite, implacável, vem sempre a ferir,

e eu me perco por não conseguir dormir.


“Tira meus anseios da mente”, peço a Deus.

Ninguém me ouve, nem tenta entender.

Às vezes só quero sumir, dizer adeus —

é duro lutar quando só se vê perder.


Eu não sou mais criança.

Hoje sou pai de uma.

Preciso de esperança

pra preencher essa lacuna.


Mas o peito aperta e não há trégua,

o relógio zomba com seu tic-tac.

Toda esperança parece cega,

e a vida pesa como um velho casaco.


Queria que alguém me ouvisse inteiro,

sem pressa, sem filtro, sem fingimento.

Mas sigo calado, no meu travesseiro,

carregando o mundo em pensamento.


Igor Gonçalves 

quarta-feira, 19 de março de 2025

O peso da noite

A noite cai, mas eu não.

Viro para um lado, depois para o outro,

o travesseiro é áspero, o lençol pesa,

meu próprio corpo me incomoda.

A escuridão me convida ao descanso,

mas minha mente nunca aceita.

Fico ali, entre os lençóis e os pensamentos,

num lugar onde não há repouso.

A casa está quieta, o mundo dorme,

mas eu continuo acordado,

como um intruso na própria cama,

sem encontrar um canto para existir.

Depois de tanto lutar contra a noite,

meus olhos finalmente cedem.

O corpo se rende, afunda no colchão,

e, por um instante, acho que encontrei descanso.

Mas o sono não é abrigo.

Ele me engole como águas profundas,

onde o ar falta, onde o medo cresce,

onde velhos fantasmas ainda sabem meu nome.

Corro sem sair do lugar,

grito sem voz,

sou prisioneiro de um sonho que não me pertence.

E então acordo.

Ofegante, suado, exausto.

Quase pior do que antes de dormir.

Talvez seja melhor ficar acordado.

Talvez o verdadeiro descanso

seja apenas uma ilusão.

Igor Gonçalves

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

Meu aniversário


 

Meu aniversário de 32 anos foi em 2025, mas, de alguma forma, ele me levou de volta a 2002.


Eu tinha 9 anos e ainda era uma criança intocada pelas asperezas da vida. As nuvens no céu pareciam feitas de algodão, e a proteção do mundo cabia inteiramente aos meus pais e à minha tia. Nada podia me atingir.


Naquele ano, meus pais conseguiram organizar uma festa de aniversário em um buffet que, curiosamente, ainda hoje é cliente do nosso escritório contábil. O tema? Dragon Ball. Para mim, aquilo foi o auge da felicidade. Essa obra sempre teve um significado enorme na minha vida, tanto que me tornei colecionador de action figures por causa dela. Hoje, minha coleção já conta com centenas de peças.


O mais impressionante é que essa festa foi filmada na íntegra e gravada em um CD — um CD cuja existência eu desconhecia. No último sábado, 08/01, ao revirar fotos da infância para mostrar à minha namorada, acabamos encontrando essa relíquia esquecida pelo tempo.


Ao assisti-lo, vi o Igor do passado, aquele que não conhecia dores, que dormia tranquilamente e que sorria todos os dias sem as preocupações da vida adulta.


E então, no final da gravação, vieram os depoimentos dos meus pais.


Meu pai partiu em 2017, e sinto sua ausência todos os dias. Tornei-me contador para ser como ele, e durante muito tempo, tudo o que fiz foi buscando sua aprovação e admiração. Eu queria que ele tivesse orgulho de mim. Assistir aquele vídeo inédito foi um presente de aniversário que atravessou o tempo.


Uma cápsula do passado que permaneceu perdida por 23 anos, até encontrar o Igor do futuro — um homem que já não é mais aquela criança, mas que agora aguarda ansiosamente a chegada da sua primeira filha, a pequena e amada Emily.


No primeiro momento, chorei. As lágrimas vieram tão naturalmente quanto a respiração. Mas, logo depois, fui tomado por uma felicidade imensa ao ver, mais uma vez, o quanto meu pai me amava e tudo o que ele fazia por mim. Assim como minha mãe, que, graças a Deus, ainda está ao meu lado, acompanhando cada um dos meus passos.


Meu pai foi um homem extraordinário, admirado e amado por muitos. Ele sempre amou profundamente seus filhos, e esse amor, que transborda naquele vídeo, é o mesmo que minha pequena Emily receberá.


Ele é meu maior exemplo. Vive em mim, nas minhas memórias e no coração de todos que o amam.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

Contra a maré

À noite, o silêncio pesa mais do que o cansaço, 
e eu me vejo perdido entre os dias iguais.
Os olhos queimam, a mente implora um descanso,
mas o sono, traiçoeiro, nunca vem.

O mundo gira pesado sobre os meus ombros,

e eu rezo por um alívio que nunca chega.

As pessoas passam, envoltas em seus próprios fardos,

e eu aprendi a não esperar ajuda.


A maré me empurra para trás, sem piedade,

mas meus braços ainda têm força para remar.

Mesmo que o horizonte pareça distante,

eu sei que sou o único que pode me levar até lá.


Então respiro fundo, seguro o leme,

e decido que não vou afundar.

O esforço é meu, a vitória também será.

E enquanto o mundo dorme, eu sigo…

remando.


Igor Gonçalves 

domingo, 2 de fevereiro de 2025

O barulho continua


Minha mente quando fecho os olhos insinua

A chegada de um terremoto e tudo treme.

Não adormeço e o barulho continua,

A noite me engole, mas nunca me vence.


O travesseiro é um palco de sombras

Onde o sono se finge de abrigo.

Mas logo me empurra pra fendas profundas,

Me afoga em pesadelos que gritam comigo.


O tempo se dobra em um laço apertado,

Os minutos rastejam sem rumo.

Me viro na cama, prendo o fôlego,

Mas o silêncio me cospe de volta ao escuro.


Adormeço, por fim, sem força, sem luta,

Mas o sono é um algoz traiçoeiro.

Me acorda rasgado, sem ar e sem fuga,

Com o peito batendo um medo inteiro.


A cada cochilo, o inferno retorna,

Em cenários que nunca escolhi.

Acordo ofegante, perdido no quarto,

Sem saber se dormi ou morri.


Meus olhos ardem, queimando em cinzas,

Meu corpo suplica por trégua.

Mas tudo que ganho são horas vazias

E um ciclo que nunca encerra.


O relógio debocha em seus ponteiros lentos,

Desenhando meu cansaço no tempo.

Cada piscada é um salto no abismo,

Cada sonho, um novo tormento.


Me encolho nas cobertas como se fossem muralhas,

Mas nada detém a tormenta.

O escuro transborda, me puxa pra dentro,

E o medo rasteja, frio como serra.


E quando o sol enfim toca minha pele,

Sinto a luz como ferro em brasa.

O mundo desperta, mas eu, despedaço,

Carregando a noite no rosto e na alma.


Já nem sei se é pior não dormir ou sonhar,

Se o dia é refúgio ou sentença.

Mas sei que ao anoitecer, sem escolha,

Voltarei a ser presa do próprio tormento.


Igor Gonçalves 

terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Corações e Trovões

Os corações, frágeis como cristal,

Dançam no abismo do bem e do mal.

Quebram-se em mil ao menor deslize,

Ecoando dores que ninguém precise.


Na minha mente, trovões a rugir,

Estrondos que insistem em nunca partir.

São tempestades que moldam meu ser,

Cicatrizes que o tempo não quer esquecer.


Os pedaços de um coração partido

Espalham verdades que nunca admito.

Cada estilhaço, um reflexo do chão,

De sonhos desfeitos, perdidos na mão.


E os trovões continuam a gritar,

Como vozes que vêm para me confrontar.

Ressoam memórias de um tempo fugaz,

De dias que o vento levou para trás.


Mas mesmo em meio ao som e ao quebrar,

Há uma força que insiste em lutar.

Corações se colam, trovões se aquietam,

E a calma emerge onde as dores se insetam.


Que os trovões sejam guias no meu renascer,

Que os pedaços se unam para me refazer.

Pois entre os estrondos e o cristal no chão,

Encontro a força que há na solidão.


Igor Gonçalves