quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Os adultos estão falando

Tem momentos em que a gente fala, fala, fala… e percebe que ninguém está ouvindo de verdade.


Não porque a conversa não exista.

Ela existe.

Mas porque já começou com um veredito pronto.

Qualquer frase vira prova.

Qualquer pausa vira culpa.

Qualquer reação vira munição futura.


O mais cansativo não é discordar.

É não conseguir terminar um raciocínio.

É sentir que tudo o que você diz será recortado, deslocado e devolvido contra você.


Aí você começa a economizar palavras.

Não por maturidade, mas por sobrevivência.

Porque explicar demais machuca.

E se explicar pouco também.


Os “adultos estão falando”, dizem.

Mas ninguém escuta.

Todo mundo responde.

Todo mundo se defende.

Todo mundo quer ganhar.


E você só queria ser entendido.


Não é raiva.

É desgaste.

Não é vontade de ir embora.

É vontade de não precisar se esconder dentro de si.


Quando falar vira risco, o silêncio parece refúgio.

Mas silêncio prolongado vira prisão.


Talvez crescer seja perceber isso:

que maturidade não é falar mais alto,

é criar espaço para o outro existir sem ser punido por isso.


E quando esse espaço não existe,

não é fraqueza se sentir cansado.

É apenas o corpo avisando

que diálogo sem escuta não sustenta ninguém.


Igor Gonçalves 

quarta-feira, 23 de abril de 2025

Emily

 




Você ainda nem chegou,

mas já sinto os escombros em mim se moverem,

tentando abrir espaço pra algo novo,

algo que não entendo,

mas que sei que preciso.


Talvez você nunca saiba o quanto me salvou

só por existir.

Porque eu estava afundando,

afogado em mim mesmo,

em dúvidas, cobranças, ruídos que ninguém ouve.

E então… você.


Emily.

Seu nome carrega mais do que sílabas,

carrega um pacto.

Um pedido mudo ao universo

pra que, dessa vez,

as coisas façam sentido.


Não te prometo perfeição,

sou feito de rachaduras,

de noites em claro,

de silêncios que doem.

Mas prometo tentar.

Tentar ser abrigo.

Ser chão.

Ser ponte,

mesmo quando tudo em mim quiser desabar.


E se um dia você ler isso,

e o mundo estiver pesado demais,

quero que saiba:

você chegou quando tudo era confuso,

mas trouxe uma clareza que eu nem sabia precisar.


Você não nasceu do caos.

Você nasceu apesar dele.

E só por isso… já é milagre.


Igor Gonçalves

quarta-feira, 2 de abril de 2025

Se foi meu melhor, por que ainda dói?

 Eu não penso mais naqueles dias,

mas às vezes, sem querer,

eles me atravessam.

Num cheiro, numa música, numa mensagem que não veio.


Disseram que eu era distante.

Talvez fosse.

Mas era o único jeito que eu tinha de não desabar.

De continuar andando mesmo sem direção.


Liguei, ninguém atendeu.

De novo.

E eu sei que ninguém deve nada,

mas no silêncio dos toques não atendidos

parecia que o mundo me lembrava:

você tá só.


Fiz o meu melhor.

Com as ferramentas tortas que eu tinha.

Com os traumas escondidos atrás de um sorriso discreto.

Com os medos que ninguém nunca viu porque eu escondia bem.


Fiz o meu melhor.

Mas às vezes… parece que o meu melhor

era pouco demais pra qualquer um ficar.


E aí me pego nesse presente desbotado,

tentando dar sentido ao passado

e torcendo pra não me perder no processo.


Se um dia alguém me perguntar:

“Você se arrepende?”

Talvez eu diga:

“Não. Mas eu ainda sinto falta… do que eu queria que tivesse sido.”

sábado, 29 de março de 2025

Chuveiro às 4 da manhã

 



Quatro da manhã, o mundo dorme,

mas eu, em pé, feito naufrágio.

A água cai como se lavasse

o que nem o tempo tem coragem.


Meu corpo quente, alma fria,

coração batendo devagar.

A vida grita pelas frestas

de um silêncio que veio pra ficar.


Assumi tudo o que sobrou,

a empresa, os nomes, a missão.

Mas quem segura o que me falta

quando me perco na obrigação?


O pai se foi — deixou legado,

mas não deixou manual de ser.

A mãe e a tia me olham em prece,

esperam que eu saiba o que fazer.


A casa limpa, o almoço pronto,

a roupa passada sem dizer nada.

Mas tem um tipo de solidão

que não se lava com água parada.


O escritório me espera cedo,

mas cedo já sou ausência lá.

Meu corpo vai, meu peito volta,

e a alma finge que vai aguentar.


Os clientes querem milagre,

mas não pagam nem atenção.

Eu viro número no e-mail deles,

eles viram pedra na minha mão.


Não tem descanso entre os prazos,

não tem aplauso entre os deveres.

Só a cobrança que sussurra

enquanto o sono vira paredes.


E eu, que queria viver amor,

me vejo sozinho entre os cantos.

A casa cheia, o peito vago,

um “nós” que perdeu encanto.


Ela dorme cedo, sem me ouvir,

sem ver que lutei o dia inteiro.

E eu vou pro banho me esconder,

feito criança em desespero.


A água quente escorre lenta,

como se soubesse onde doer.

Toco o azulejo como quem reza,

mas nem Deus parece responder.


O box é meu confessionário,

o espelho não ousa me encarar.

E toda madrugada se repete

com meu peito prestes a estourar.


Eu grito em silêncio, todos os dias,

pra não assustar quem me quer bem.

Mas quem ama também cansa

quando só entrega e nunca tem.


Tenho medo de morrer subitamente,

não por tragédia, mas por excesso.

Como quem cai dormindo em pé

de tanto fingir que tem sucesso.


As costas doem mais que o normal,

mas não sei se é físico ou alma.

Só sei que carrego mais do que posso,

e a conta chega quando tudo acalma.


Queria uma voz que dissesse:

“Vem, descansa, eu seguro agora.”

Mas tudo o que ouço é o eco

de quem já partiu, de quem foi embora.


A filha vem. É minha luz futura.

A única certeza que me empurra.

Quero ser chão firme pra ela pisar,

mesmo sendo feito de ruptura.


Penso nela no meio da noite,

quando tudo pesa, quando tudo cala.

Ela ainda não sabe, mas me salva

toda vez que o mundo me estala.


Não quero que ela herde a dor,

nem o cansaço que me molda.

Quero que ela herde minha vontade

de continuar mesmo quando tudo falta.


E eu continuo. Todos os dias.

Mesmo com medo, mesmo sem fé.

Porque alguém precisa sustentar

o teto que ainda se mantém de pé.


Sou filho, sou patrão, sou pai,

sou homem tentando não sumir.

Sou silêncio que ninguém ouve,

mas que insiste em resistir.


Já pensei em ir embora por um tempo,

ver se alguém notaria o vazio.

Mas sei que se eu parar de vez,

quem eu amo também cai no frio.


Então fico. Me reconstruo à força.

Com fita, respiração funda e obrigação.

Sorrio às pessoas, mas por dentro

sou tempestade em furacão.


E amanhã eu vou de novo,

mesmo com o peito querendo parar.

Porque alguém lá na frente me espera,

e eu ainda quero ensinar a caminhar.


Quatro e vinte. A água esfria.

Hora de fingir mais um começo.

Visto a roupa, engulo a alma,

e saio — como se ainda tivesse endereço


Igor Gonçalves