Não é o começo que cansa,
é chegar nele já exausto.
As luzes acendem
quando você ainda está recolhendo
os pedaços do dia anterior.
Chamam de estreia,
mas você sabe:
é continuidade disfarçada de novidade.
Há aplausos imaginários,
expectativas que não perguntam
se você dormiu,
se teve colo,
se alguém dividiu o peso.
Você entra em cena
com a roupa do papel que esperam,
não com a pele que sente.
E ali, no centro,
rodeado de olhares,
descobre o paradoxo:
estar visível
e profundamente sozinho.
O tempo passa como um comentário jogado no ar:
“já se foi uma década”.
Mas ninguém vê as caixas
que você carrega por dentro,
essas que não se abrem
sem custo emocional.
Arriscar o pescoço hoje
não é pular do alto,
é admitir cansaço,
é não fingir encanto,
é permanecer humano
num mundo que prefere performance.
A noite pesa
não porque seja escura,
mas porque pede mais
de quem já deu demais.
Então você segue,
com cuidado,
sem se apaixonar pelo brilho do início,
sabendo que sobreviver
também é uma forma de coragem.
E mesmo assim,
algo em você ainda pensa,
ainda observa,
ainda sente.
Dá pra ver daqui.
Igor Gonçalves