sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Noite de estreia


Não é o começo que cansa,

é chegar nele já exausto.

As luzes acendem

quando você ainda está recolhendo

os pedaços do dia anterior.


Chamam de estreia,

mas você sabe:

é continuidade disfarçada de novidade.


Há aplausos imaginários,

expectativas que não perguntam

se você dormiu,

se teve colo,

se alguém dividiu o peso.


Você entra em cena

com a roupa do papel que esperam,

não com a pele que sente.


E ali, no centro,

rodeado de olhares,

descobre o paradoxo:

estar visível

e profundamente sozinho.


O tempo passa como um comentário jogado no ar:

“já se foi uma década”.

Mas ninguém vê as caixas

que você carrega por dentro,

essas que não se abrem

sem custo emocional.


Arriscar o pescoço hoje

não é pular do alto,

é admitir cansaço,

é não fingir encanto,

é permanecer humano

num mundo que prefere performance.


A noite pesa

não porque seja escura,

mas porque pede mais

de quem já deu demais.


Então você segue,

com cuidado,

sem se apaixonar pelo brilho do início,

sabendo que sobreviver

também é uma forma de coragem.


E mesmo assim,

algo em você ainda pensa,

ainda observa,

ainda sente.


Dá pra ver daqui.


Igor Gonçalves 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Esforço que cai no vazio


Eu entreguei cuidado
não como moeda,

mas como gesto.


Não contei recibos,

não somei valores,

não esperei aplauso.


Só esperei que isso

não fosse invisível.


Mas há um cansaço específico

que não vem do fazer demais,

vem de fazer

e não encontrar ninguém do outro lado.


É o esforço que cai no vazio.

O gesto que não encontra pouso.

A mão estendida

que não é recusada

apenas ignorada.


Eu cuidei

e recebi invalidação.


Não um “não”,

mas um silêncio que pesa mais.

Não uma briga,

mas a sensação de que nada do que faço

se fixa no mundo.


O corpo aprende antes da cabeça.

Aprende que descansar é perigoso.

Que falar vira armadilha.

Que amar exige cuidado excessivo

para não provocar tempestades.


E mesmo assim,

eu continuei fazendo o certo.

Não porque alguém pediu,

mas porque é quem eu sou.


Só que chega um ponto

em que o amor sem eco

vira desgaste.

E a entrega sem acolhimento

vira dor limpa,

sem escândalo,

sem plateia.


Não fiz esperando algo em troca.

Mas receber descaso

depois de tanto cuidado

fere de um jeito

que não sangra 

corrói.


E talvez o mais difícil

não seja a falta de retorno,

mas perceber

que estou aprendendo

a me proteger

do próprio amor.



Igor Gonçalves